❝ A vida é muito mais do que isso… A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.’ Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz. Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas… Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida… Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança. Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto… Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos… Netos, pros vizinhos… E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente. Arrume a sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela… E reconhecer nela o seu lugar.

—  Carlos Drummond de Andrade, “Casa Arrumada”. 

(Source: enaltecida)

(Source: nikolawashere)

❝ Se faltar calor, a gente esquenta
Se ficar pequeno, a gente aumenta
E se não for possível, a gente tenta…

— Engenheiros do Hawaii 

(Source: morgananasc)

(Source: littlepoynter)

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Parei um pouco, nessa madrugada, pra fazer o que mais gosto no mundo inteirinho (mesmo que eu me ache sem vocação alguma e perca a linha da coerência algumas vezes entre os pensamentos que só não são mudos por que eu ainda não aprendi como cortar a língua deles) que é escrever.

Escrever é uma libertação à parte. É fugir um pouco da nossa própria dor e alimentar a dor dos outros. E é por isso que começarei essa história que se não fosse sobre amor não seria escrita pela caneta que meu coração carrega. E pra começar esse texto, preciso passar corriqueiramente pela minha própria vida que mesmo com as linhas certas foi escrita de forma torta…

São os nossos desejos infantis e mais puros que criam essa ideia de que o amor romântico tem de ser pra sempre. Quando só mais tarde, depois de já adultos infantilizados e com o potinho cheio de mágoas é que notamos que nenhum relacionamento é para sempre. Aquela amizade que você cultivou com tanto zelo parte da sua vida sem a menor das explicações, os familiares vão morrendo aos poucos e o cordão umbilical é cortado. E então nos damos conta de que somos sozinhos no mundo. Exceto por esse emaranhado de pensamentos, sensações e lembranças que parecem ter vida própria.

Aos dois anos de idade meus pais se separaram e aos seis, sete anos minha mãe estava amando novamente. E a ideia que eu tenho sobre o amor é que ele continua. O amor não acaba. O que acaba são os relacionamentos, as pessoas partem em busca de novos aprendizados, porque com o passar dos anos o amor deixa de ser amor pra se tornar comodidade, carinho, respeito e o laço mais forte que conheço: amizade.

Tenho na família um casal de velhinhos (falecidos há pouco mais de um ano) que terminaram a vida juntos. Antes dela falecer, o senhor disse que “não conseguiria viver sem ela” e ao perguntar a ele se isso era amor (e me recordo perfeitamente da frase) respondeu que “Com tempo o amor deixa de ser amor pra se tornar outra coisa e essa coisa é chamada de vida”. Quase três meses depois que ela faleceu, ele faleceu também.

Talvez o amor seja exatamente o contrário do que a gente espera. A gente começa um relacionamento esperando que, na pior das hipóteses, ele dure até o fim de nossas vidas.Quando na realidade o amor é igual decoração de uma casa. Às vezes, é preciso que se jogue algumas coisas fora pra que outras tomem o lugar. Afinal, peças quebradas não servem pra nada. Só ocupam espaço e tempo.

Por um longo tempo eu não amei ninguém. Não por que não quisesse, mas, às vezes, o nosso coração é que não está preparado pra amar, pra dar espaço pra alguém além de nós mesmos. Eu tenho marcas, cicatrizes longas e infinitas que nunca vão sumir, porque quem a gente foi e o que a gente passou vai dentro da nossa bagagem de experiência. São as marcas do passado que sempre ficarão expostas no nosso presente e futuro. Por mais que esquecer seja uma coisa que, em nossas mentes, precisa acontecer, não existe a possibilidade. As pessoas só saem de foco pra ir pro nosso armário de decepções. Algumas poucas ganham um cantinho especial, onde são cultivadas e regadas todo santo dia com os mais belos sorrisos. E outras ganham apenas lágrimas por não conseguirem ter feito nada além de nos causar dor.

Acostumamo-nos (de forma universal) a ver pessoas entrando e saindo de nossas vidas como se tivéssemos uma programação de TV em nosso pequeno cérebro, mas a realidade é que não temos a mínima noção de como lidar com a perda, o afastamento e principalmente, a dúvida de não saber se faltou algo que nos foi impedido de ser vivido.

A realidade é que não nos ensinam na escola, dentro de casa que cedo ou tarde teremos de ver aquele amigo partindo em busca de seus objetivos, não nos ensinam que teremos nosso coração partido pela perda de um amor, não nos ensinam nada daquilo que realmente vale à pena. Não nos ensinam como se deve viver.
Isso se deve aprender na marra, com os milhares de tombos que levamos simultaneamente ao choro engolido porque não nos deram tempo nem sequer pra raciocinar o último segundo da partida de alguém.

O mundo é mesmo um tanto quanto esquisito. A gente pede pro tempo correr de pressa e num passe de mágica a gente se dá conta de que a vida voou rápido demais e de quantas oportunidades perdeu e de quantas travessias fez e de quantas vezes sorriu e de quantas vezes chorou e de quantas vezes esqueceu-se de ver o quanto é bom aproveitar um dia de cada vez.

A verdade é que nessa correria urbanóide de acordar todos os dias atolados de compromissos inadiáveis, de necessidades urgentes, de contas atrasadas a gente acaba esquecendo-se da coisa mais importante do mundo que é se aproveitar, que é se amar, que é amar as pessoas, curtir a companhia dos amigos, uma boa conversa no barzinho da esquina, de viajar, de valorizar o nosso próprio bem estar. A gente acaba por acumular coisas demais, coisas que, às vezes, a gente nem precisa.

Tenho a leve impressão de que o tempo e o amor seguem linhas opostas. Raras são às vezes em que somos pegos com os dois disponíveis. O amor quase nunca chega na hora certa e quando chega a gente quase nunca aproveita as oportunidades que nos foram dadas.

O amor é inimigo do desespero. Quase sempre ao abrirmos a porta para que o amor entre, estamos completamente bagunçados… Esperando que num passe de mágica a vida mude e tudo se organize. Esse é o maior dos males dos apaixonados: Achar que o amor é solução, quando na verdade o amor é só um sentimento. Um sentimento que precisa ser cultivado dia após dia.

É hora de parar um pouco e analisar tudo o que se foi vivido. É hora de botar na balança o que não importa mais e o que realmente importa. Por que é só quando aprendermos a fazer a nossa dieta emocional que poderemos ter uma vida saudável.

— Cadu Moraes, “Dieta Emocional”. 

(Source: outonodemim)

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